• Ana Paula Peron

Errada é sempre a outra pessoa!!!

Os irmãos Ângela e Armando, de 50 e 55 anos, respectivamente, viviam em “pé de guerra”. Sócios em uma empresa, HAVIAM ROMPIDO RELAÇÕES pessoais há dois anos. E o negócio vivia em função dessa separação: uma sala para cada um, secretárias exclusivas, tudo em duplicidade, nada compartilhado.


Um terceiro sócio, que não era da família, não sabia mais o que fazer…


Em reuniões, os dois irmãos CONTRADIZIAM UM AO OUTRO. Se Armando contratava alguém, Ângela demitia a pessoa. Se Ângela confiava em alguém, Armando criava caso. Você consegue imaginar a tensão diária naquele ambiente?


O conflito entre eles, obviamente, estava IMPACTANDO profundamente O DIA A DIA DA COMPANHIA. Para complicar, a filha da Ângela era responsável pela área de Gestão de Pessoas e o tio não confiava na sobrinha. A filha de Armando também trabalhava lá, porém, num cargo hierarquicamente inferior ao da prima, na Área de Marketing. Mais um motivo para acirrar a competição!


Quando comecei a trocar ideias com o terceiro sócio, que buscava uma solução para o caso, entendemos que a MEDIAÇÃO SERIA A ABORDAGEM MAIS EFETIVA entre Ângela e Armando. Propus começarmos com sessões individuais de Coaching de Conflitos, pois não era possível levá-los a um encontro naquele momento. Nenhum dos dois queria conversar frente a frente, mas ambos aceitaram conversar comigo individualmente, pois TAMBÉM QUERIAM ENCONTRAR UMA SAÍDA para a situação.


Eu acreditava que, com o Coaching, seria possível “desescalar” o conflito entre os irmãos. A falta de relacionamento e a rivalidade entre eles chegara a um nível tão desafiador – diria, repleto de emoções negativas - que era necessário, com bastante cuidado, CONVIDÁ-LOS A EMPATIZAR um com o outro. Assim, quem sabe, poderiam se compreender mutuamente e, aos poucos, criar condições para conversar e buscar caminhos para voltarem a conviver.

Nas sessões individuais, Ângela e Armando até manifestaram certa empatia e compreensão um pelo outro, reconhecendo pontos positivos e a IMPORTÂNCIA DO IRMÃO E DA IRMÃ, RESPECTIVAMENTE, PARA O NEGÓCIO. Entretanto, depois de quatro sessões com cada um deles, não havia qualquer sinal de que, de fato, quisessem se sentar juntos para conversar.


Em cada encontro, eu perguntava a cada um deles sobre como se sentia, o que pensava sobre a situação e o que precisava. E, em seguida, fazia as mesmas questões: o que Armando/Ângela sente, pensa e precisa? Em certos momentos, apesar da mágoa sentida, eles até tentavam avançar, mas logo voltavam com as ofensas e a raiva – esta última, uma emoção que pode esconder muitos outros sentimentos bem doloridos como a rejeição.

Os irmãos tinham muitas HISTÓRIAS MAL RESOLVIDAS desde a infância, dores e medos profundos, sentimentos de rejeição e menos valia. E, no início da vida adulta, quando tiveram de tomar conta dos negócios sozinhos, depois do falecimento da mãe, esses sentimentos se potencializaram e a competição entre os dois ficou insustentável.

Invariavelmente, ao final dos encontros, eu ouvia de ambos uma frase parecida, algo assim:

“Ana, você vai provar que eu estou certa(o) e ele(ela) está errado(a)?” E eu respondia: “Não é este o meu papel como mediadora. Estou aqui para tentar abrir um campo de diálogo autêntico entre vocês, para que possam se compreender, empaticamente, e negociar de forma colaborativa.”

Mas eles não queriam saber de conversa. Então, para o quinto encontro, propus experimentar um outro caminho. Com o consentimento dos dois, organizei um CÍRCULO RESTAURATIVO: cada um teria de convidar cinco pessoas da família e da empresa. A ideia era reunir o marido de Ângela e a esposa de Armando, os filhos de ambos, os diretores da empresa e as duas secretárias, pessoas impactadas diretamente pelo conflito dos irmãos no dia a dia.

Assim, dias depois, formando um grupo com todas essas pessoas, eu e meus parceiros de trabalho, Sidnei Soares e Fátima Patz, focalizamos um Círculo Restaurativo na empresa. A pergunta fundamental para todos, depois de uma rodada de “como chegavam para aquela ação” e “o que traziam de melhor para ofertar”, era: “COMO ESTE CONFLITO ENTRE ÂNGELA E ARMANDO IMPACTA A SUA VIDA?”

O nosso objetivo era levar os dois irmãos a escutar como pessoas importantes na vida de cada um deles estavam vivendo aquela experiência – eles eram donos da empresa e tinham ascensão e poder sobre aquele grupo que, diariamente, vivia os reflexos daquela situação conflituosa, no trabalho e em casa.

A DINÂMICA FOI MUITO PROFUNDA E REVELADORA: os participantes do grupo se abriram, disseram como se sentiam, relataram os medos de cada um em relação à disputa. Os dois irmãos também falaram, manifestando a dedicação de cada um à empresa, o quanto ela era importante para eles... E, mais uma vez, diante de todos, Ângela disse que estava certa e Armando, errado. E Armando, por sua vez, disse que estava certo e Ângela, errada.

Após essas declarações, era hora de concluir o Círculo Restaurativo. Como eu já havia explicado para o grupo que, nessa metodologia, não há expectativas de um encaminhamento ao final, o processo terminou com cada pessoa contando como havia se sentido durante as horas em que estiveram reunidas. Ângela e Armando falaram muito pouco nesse final...

Dias depois, fiz mais uma sessão de Coaching individual com ambos, para ver como poderíamos caminhar. E, para minha surpresa, ouvi dos dois, praticamente, o mesmo comentário:

“ANA EU NÃO GOSTEI, PORQUE VOCÊ NÃO PROVOU QUE EU ESTAVA CERTA(O).”

Depois de todas as conversas, do Círculo, das possibilidades de reflexões, de manifestarem diversos sentimentos, era isso que Ângela e Armando continuavam querendo...


Compreendendo as necessidades, os medos e as impossibilidades, HONREI A HISTÓRIA DE CADA UM DELES. Mas, consciente de que eu não tinha mais o que fazer naquele momento, pois ambos estavam irredutíveis, ENCERRAMOS CONSENSUALMENTE O TRABALHO.


Soube, depois, que as pessoas que trabalhavam na empresa se fortaleceram bastante e decidiram tocar os negócios para além da história dos irmãos e seus desdobramentos diários. Juntos, conseguiram compreender que a situação entre os irmãos era algo muito forte e não poderiam mudá-la. E começaram a sofrer menos com a relação entre eles. 

Hoje, fico imaginando como estará a relação dos dois, acreditando que o trabalho não foi em vão. Quem sabe, hoje, com ambos mais maduros, já tenha sido possível um reencontro.

Por

Ana Paula Peron

Especialista em apoiar pessoas e organizações na construção de relações mais saudáveis e sustentáveis, a partir de processos meditativos

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